sábado, 1 de maio de 2010

Conheça os textos clássicos do jornalismo


Começa hoje aqui no blog uma série com as grandes reportagens do mundo jornalístico, nada mais apropriado que a data de 1º de maio para isso. Nesta dia, certamente milhares de jornalistas estão trabalhando e desconhecem a palavra feriado. Por aqui passarão nomes como John Hersey que inaugura a série com Hiroshima, Carl Bernstein e Bob Woodward do caso Watergate entre tantos outros.

Textos como os que virão, servem como inspiração para os milhares de jovens jornalistas que a cada ano são jogados no mercado de trabalho ou que ingressam em uma faculdade. Vale ressaltar que não apenas textos estrangeiros serão aqui divulgados. Vencedores do prêmio Jabuti e Pulitzer terão certamente um espaço reservado, mesmo que não seja possível empregar integralmente o seu conteúdo.

Hiroshima - John Hersey.

Publicado pela revista New Yorker em agosto de 1946, a reportagem virou livro. Segue um trecho da obra.

No dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica explodiu sobre Hiroshima, a Srta. Toshiko Sasaki, funcionária da Fundição de Estanho do Leste da Ásia, acabava de sentar-se a sua mesa, no departamento de pessoal da fábrica, e voltava a cabeça para falar com sua colega da escrivaninha ao lado. Nesse exato momento o Dr. Masakasu Fujii se acomodava para ler o Asahi de Osaka no terraço do seu hospital particular, suspenso sobre um dos sete rios deltaicos que cortam Hiroshima; a Sra. Hatsuyo Nakamura, viúva de um observava, da janela de sua cozinha, a demolição da casa vizinha, situada num local que a defesa aérea reservara às faixas de contenção de incêndios; o padre Wilhelm Kleinsorge, jesuíta alemão, lia a Stimtnen derZeit, revista da Companhia de Jesus, deitado num catre, no terceiro e último andar da casa da missão de sua ordem; o dr. Terufumi Sasaki, jovem cirurgião, caminhava por um dos corredores do grande e moderno hospital da Cruz Vermelha local, levando uma amostra de sangue para realizar um teste de Wassermann*; e o reverendo Kiyoshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, parava na porta de um ricaço de Koi, bairro do oeste da cidade, para descarregar um carrinho de mão cheio de coisas que resolvera transferir para ali por temer o maciço ataque dos B-29, que a população aguardava. Uma centena de milhares de pessoas foram mortas pela bomba atômica, e essas seis são algumas das que sobreviveram. Ainda se perguntam por que estão vivas, quando tantos morreram. Cada uma delas atribui sua sobrevivência ao acaso ou a um ato da própria vontade—um passo dado a tempo, uma decisão de entrar em casa, o fato de tomar um bonde e não outro. Agora cada uma delas sabe que no ato de sobreviver viveu uma dúzia de vidas e viu mais mortes do que jamais teria imaginado ver. Na época não sabiam nada disso.

O reverendo Kiyoshi Tanimoto acordou às cinco da manhã. Estava sozinho no presbitério, pois fazia algum tempo que sua esposa e a filha de um ano pernoitavam com uma amiga em Ushida, um bairro da zona norte. De todas as cidades importantes do Japão apenas duas — Kyoto e Hiroshima — ainda não haviam recebido a visita de B-san, Sr. B, tratamento que, com um misto de respeito e triste familiaridade, os japoneses dispensavam ao B-29; como todos os seus vizinhos e amigos, o Sr. Tanimoto estava quase doente de ansiedade. Ouvira relatos detalhados e inquietantes de bombardeios maciços sobre Kure, Iwakuni, Tokuyama e outras localidades da região; tinha certeza de que logo chegaria a vez de Hiroshima. Na noite anterior havia dormido mal, em função de vários alarmes antiaéreos. Fazia semanas que os alarmes soavam praticamente todas as noites, pois nessa época os B-29 utilizavam lago Biwa, a nordeste de Hiroshima, como ponto de encontro qualquer que fosse o alvo escolhido, sobrevoavam a costa próxima à cidade. A freqüência dos alarmes e a constante abstinência do Sr. B com relação a Hiroshima tinham deixado a população extremamente tensa; corriam boatos de que os americanos preparavam algo especial para a cidade.

O Sr. Tanimoto era um homem baixinho, sempre disposto a conversar, rir e chorar. Usava o cabelo preto, um tanto longo, repartido ao meio; os ossos frontais salientes, logo acima das sobrance-lhas, o bigode minúsculo, a boca e o queixo pequenos lhe conferiam uma estranha aparência de velho e jovem ao mesmo tempo, um ar de menino e no entanto sensato, frágil e no entanto apaixo-nado. Havia em seus movimentos nervosos e rápidos um controle que sugeria cautela e ponderação. E essas qualidades, ele as demonstrou nos dias de apreensão que precederam o lançamento da bomba. Além de mandar a esposa pernoitar em Ushida, levara todas as coisas portáteis de sua igreja, situada no populoso bairro residencial de Nagaragawa, para uma casa pertencente a um fabricante de raiom em Koi, a uns três quilômetros do centro. Esse industrial, Sr. Matsui, oferecera sua propriedade, até então desocupada, a numerosos amigos e conhecidos, para guardarem o que desejassem, a uma distância segura do possível alvo. O reverendo tinha grande dificuldade para carregar cadeiras, hinários, Bíblias, objetos litúrgicos e registros paroquiais em seu carrinho de mão, porém queria transportar sozinho o órgão e o piano. Na véspera da explosão, seu amigo Matsuo o ajudara a levar o piano para Koi; em troca ele prometera lhe dar uma mão para salvar os pertences de uma filha. Por isso levantara tão cedo.

Terrivelmente cansado, preparou seu café-da-manhã. O esforço de carregar o piano, a noite insone, as semanas de preocupação e alimentação inadequada, os deveres da paróquia — tudo contribuía para que se julgasse pouco capaz de cumprir as obrigações do dia. E havia mais uma coisa: ele estudara teologia no Emory College, em Atlanta, Geórgia, tendo se formado em 1940; falava inglês fluentemente, vestia roupas americanas, correspondera-se com muitos amigos americanos até o início da guerra; e, entre indivíduos obsedados pelo medo de estar sendo vigiados — obsessão que talvez compartilhasse —, sentia crescente inquietação. Várias vezes fora interrogado pela polícia e, apenas poucos dias antes, soubera que um influente conhecido seu, o Sr. Tanaka, oficial reformado da companhia de navegação Toyo Kisen Kaisha, anticristão, famoso em Hiroshima por sua filantropia ostensiva e notório por sua tirania pessoal, andara contando a todo mundo que não se podia confiar em Tanimoto. Para demonstrar publicamente que era um bom japonês, o pastor assumira a presidência de sua tonarigumi (Associação de Bairro), acrescentando a seus deveres e preocupações a tarefa de organizar a defesa antiaérea de umas vinte famílias.

Se gostou do que leu até aqui, aproveite e compre esta grande obra que todo jornalista não deve deixar de ter em sua biblioteca particular. Caso queira ler on line, veja neste link do site scribd.com

2 comentários:

  1. Boa abordagem, conceito e teor jornalístico tem seu blog, tudo me define, visto que sou da área também.

    Gostei mesmo, principalmente dos seus posts sobre filmes.

    Estou de olho, te linkei ao meu espaço, seguirei aqui

    até!

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  2. Ei Eduardo!! Meu agora que vi com seu comentário. Do Two And A Half Men quem participa do Curtindo a Vida Adoidado é o Charlie Sheen. Ele faz uma cena de uns 30 segundos, é tipo um doido de uma delegacia...é engraçado também!

    Hiroshima, livro de cabeceira para a gente. Aliás, isso me fez lembrar das aulas da Jaqueline! Abraço meu caro

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