terça-feira, 30 de novembro de 2010

Frank Sinatra Has a Cold

cia_letras_fama Um dos mais conceituados perfis de todos os tempos está disponível para qualquer um que possa acessar a rede mundial de computadores. Sob o título Frank Sinatra Has a Cold, de Gay Talese, a Esquire publica na íntegra em seu site o perfil, escrito em 1966 e que faz parte da obra Fama e Anonimato.

O perfil conta com centenas de entrevistas e contém mais de 85 mil toques e 15 mil palavras. O mais incrível é a forma como Talese tece o seu texto, de maneira simples. É difícil crer que algum editor daquela época pudesse não mudar o título e também ‘canetar’ o texto. Abaixo o primeiro parágrafo do perfil e depois o link para o texto na Esquire.

 

frank-sinatra-0466-lgFrank Sinatra, segurando um copo de bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava num canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele. Mas ele não dizia nada; passara boa parte da noite calado...

Frank Sinatra está resfriado. Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível — só que pior. Porque um resfriado comum despoja Sinatra de uma jóia que não dá para pôr no seguro –a sua voz–, minando as bases de sua confiança, e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece também provocar uma espécie de contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país.

http://www.esquire.com/features/ESQ1003-OCT_SINATRA_rev_

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Duas equipes de duas caras

Uma final de duas equipes que passam por momentos antagônicos nos torneios que disputam. É assim que Goiás e Independiente decidiram o título da Copa Sul-Americana 2010. Já rebaixado no Brasileiro, o clube esmeraldino joga tudo na competição que pode render dinheiro e vaga na Libertadores. O Rey de Copas chega outra vez a final de uma competição internacional enquanto isso no Apertura o clube é apenas o décimo sétimo, três pontos a frente do lanterna.

A campanha no nacional deixa o torcedor goiano triste, mas a possibilidade de disputar a Libertadores anima e acalenta. A chance de glória é real, basta analisar os adversários que o clube eliminou no torneio. Na primeira fase o poderoso Grêmio ficou pelo caminho, depois o gigante uruguaio Peñarol, a seguir uma classificação suada contra o Avaí e por fim a surpresa diante do Palmeiras. Acreditar é possível.

O Independiente faz pífia campanha no Apertura e só não corre riscos de rebaixamento devido ao regulamento que rebaixa os times de piores campanhas nos últimos três anos. A última grande conquista do Rey de Copas foi o Apertura de 2002, quando perdeu apenas duas partidas e levou o título vencendo o San Lorenzo na última rodada. Naquela época faziam parte do elenco nomes como Gabriel Milito – hoje no Barcelona, Guiñazu – conhecido dos colorados e Federico Insúa, ex-Boca.

A disputa está aberta e a tradição dos argentinos é a única vantagem revelante no confronto, mas vale lembrar que tradição não ganha jogo, Grêmio, Peñarol e Palmeiras são exemplos.

sábado, 20 de novembro de 2010

Uma reflexão sobre como tratamos nossos ídolos

ederjofre02_gcom_950 Esta semana o maior pugilista brasileiro de todos os tempos completou 50 anos de seu título mundial do peso galo. Eder Jofre, filho e aluno de ‘Kid Jofre’, derrubou o mexicano Eloy Sanchez por nocaute, no dia 18 de novembro de 1960 em Los Angeles, e conquistou pela primeira vez o titulo mundial.

O Galinho de Ouro, como era chamado, lutava pelo São Paulo Futebol Clube e recebeu homenagem com fotos e um par de luvas autografado por jogadores e comissão técnica.

Esta homenagem nos faz refletir como o povo brasileiro trata seus ídolos. Na maioria das vezes eles são esquecidos – inclusive pela imprensa – e até maltratados. São poucos os personagens que não saem do cenário e do lúdico da população. Até mesmo Pelé é alvo de chacotas. Talvez o mais respeitado de todos os nossos ídolos seja Ayrton Senna. Sim, porque falar de Senna é lembrar nostalgicamente de um momento em que éramos felizes e pueris a ponto de chorar como crianças na frente da televisão em um domingo de manhã. Senna nos dava orgulho, elevou o nome do país.

E temos tantos outros que o fizeram com dignidade, paixão e garra. Gustavo Kurten merecia ser nome ruas, praças, escolas e quiçá estádio, não só em Santa Catarina, mas no Brasil. João do Pulo, Adhemar Ferreira da Silva, Maria Lenk, Oscar Schmidt, Hortência, Paula, a geração do vôlei de 1992, a atual de Bernardinho, poderia me prolongar por mais inúmeros parágrafos, sem ao menos citar craques do futebol, como Zico, Sócrates, Rivelino, Tostão, Zagallo.

A sátira do brasileiro com seus ídolos chega a ser desrespeitosa em certos momentos. Rubinho e Massa, por exemplo, sofrem até hoje com isso. Veja só, Rubinho é o piloto que mais correu na maior categoria do automobilismo mundial, no entanto é lembrado por outros fatos como entregar a vitória para Schumacher. Não que eu ache certo, acredito até que Senna não faria e fiquei decepcionado com Massa, mas daí a debochar dele por isso já é exagero.

A questão principal é a maneira como tratamos nossas “divindades”, o desrespeito, o deboche. Talvez seja a hora de repensar tudo isso, até porque se nós não respeitamos, quem irá respeitar?

Uma dica. Amanhã no Esporte Espetacular reportagem com Eder Jofre e  Eloy Sanchez. Promete.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Futebol de cegos e paralisados cerebrais

Reportagem feita para a Revista Sentidos deste mês, edição 61, sobre a preparação das seleções paraolimpicas de futebol de cinco e futebol de sete.

As seleções não decepcionam

Longe do glamour do milionário futebol de campo, o esporte para cegos e pessoas com paralisia cerebral faz história e se prepara para as Paraolimpíadas 2012

Paixão nacional e esporte mais popular do mundo, o futebol de campo se transformou com o passar dos anos e hoje tem várias vertentes. Exemplos dessa mudança são o futebol de cinco - uma adaptação do futsal para pessoas com deficiência visual - e o futebol de sete, específico para pessoas com paralisia cerebral. Ambos não contam com tanto investimento como o ‘primo’ dos campos, mas superam os desafios e estão sempre na briga por títulos, tendo inclusive uma medalha de ouro paraolímpica.

Clique aqui para ler a matéria completa.

domingo, 14 de novembro de 2010

Mazembe e Seongnam no mundial

1334095_mediumO Mundial de Clubes da Fifa 2010 já tem todas as equipes definidas após as finais na Ásia e na África. A Coreia do Sul consolida sua força no continente asiático e mais uma vez leva o troféu com o Seongnam. Os congoleses do TP Mazembe conquistaram o bi na Tunísia e também garantiram a vaga.

Semana passada os africanos golearam o Espérance no Congo por 5 x 0 e levaram boa vantagem para a partida de volta. Ontem o empate de 1 x 1 renovou o título de campeão africano. Foi o tetracampeonato do TP Mazembe, e o segundo bicampeonato – 1967 e 1968, 2009 e 2010.

1333886_mediumO Seongnam levou o terceiro título para times sul-coreanos nos últimos cinco anos. Em  Tóquio o Seongnam bateu o Zob Ahan do Irã por 3 x 1 e celebrou seu primeiro caneco de Liga dos Campeões.

No mundial os africanos do TP Mazembe enfrentam o Pachuca, do México, na chave que está o Internacional. Do outro lado o Seongnam espera o vencedor de Hekari United, da Papua-Nova Guiné e Al Wahda, dos Emirados Árabes Unidos. Quem passar pega a poderosa e favorita Internazionale de Milão.

O campeonato será disputado entre os dias 8 e 18 de dezembro em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

Em breve farei um guia do mundial com todas as equipes. Hora dos colorados secarem os rivais na luta pelo bicampeonato.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Entregar ou não? Discussão apenas para a torcida

Diante da eminente possibilidade de dois dos maiores rivais do Corinthians decidirem o título a favor do alvinegro muita coisa foi dita e até especulada seja por nós da imprensa ou por jogadores. Mas a verdade é que o assunto é antigo e sempre que volta às páginas do jornal rende discussão. Basta lembrar do próprio nacional do ano passado, quando o Timão enfrentou o Flamengo, rival do Tricolor na disputa do título. A questão principal é se os atletas devem entrar neste imbróglio.

O torcedor está no papel dele, tirar sarro com o rival, pedir para entregar o jogo, às vezes até torcer contra o próprio time, por mais que pareça exagero, não o é. Entretanto os jogadores que são pagos pelo clube não devem entrar nesta discussão, muito menos entrar em uma partida para perder, como já vimos até em Copa do Mundo. A sensação é de enganação, de ser ludibriado pelo espetáculo chamado futebol.

felipeVolto ao exemplo da partida entre Corinthians e Flamengo em Campinas ano passado. A torcida corintiana certamente não queria que o time ajudasse o rival, mas os jogadores não podiam entrar no clima da massa. Como fez o goleiro Felipe, hoje no Braga, de Portugal. É verdade que o árbitro foi muito mal e inverteu diversos lances, errou e demasiadamente a favor dos cariocas. No entanto a indignação de Felipe e a sua atitude de nem ao menos tentar defender o pênalti foi algo absurda, repugnante.

grafite sp Anos antes, aliás, o Corinthians viveu algo semelhante, mas na parte inversa da tabela. Dependia de uma vitória do Inter contra o Goiás para permanecer na primeira divisão e novamente em uma arbitragem medonha, nada adiantou. Não adianta nem culpar o Inter por falta de motivação e vingança de 2005. Outro exemplo vem do Paulista de 2003, quando Grafite salvou o time do Parque São Jorge de um humilhante rebaixamento para a série A2. De acordo com o atacante, ele apenas cumpriu seu dever. “Não salvei o Corinthians. Apenas fiz meu trabalho”, disse.

Grafite não entrou no embalo da torcida, foi criticado por isso. Clêmer defendeu pênalti contra o Goiás. Apenas Felipe virou jogador-torcedor, e quando isso acontece, é ruim para o atleta, para o clube, para o campeonato e para o futebol. E o mais importante nisso tudo é recordar que A ou B não deixarão de ganhar por culpa dos rivais, mas pela incompetência própria.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Resenha – É Proibido Fumar

Resenha feita para o Curso de Jornalismo Cultural.

É Proibido fumar

É proibido fumar é uma versão menos dramática de Durval Discos, outro filme da diretora Anna Muylaert. Mais uma vez a música está explícita na obra e na vida dos personagens, Max (Paulo Miklos) e Baby (Glória Pires). São Paulo é o cenário da trama que se desenrola no apartamento de Baby, ponto central do longa, assim como a casa/loja de Durval. O gênero é comédia, mas irônica, sutil, acompanhada do drama. Na trama Baby é uma mulher solteira com quase 40 anos, que mora no apartamento herdado da mãe e ensina a alunos desinteressados como tocar violão, enquanto fuma seus cigarros constantemente. Ao conhecer Max sua vida se modifica completamente.

01 O longa foi lançado em 2009, justamente quando o governo do estado de São Paulo proibiu o fumo em ambientes fechados como bares, restaurantes e universidades. A discussão sobre o cigarro é abordada aparentemente de forma secundária, mas a objeção de Max ao fumo faz com que Baby tente mudar seus hábitos. No transcorrer do filme ela descobre o motivo de ele não quer o cigarro em seu apartamento.

A camiseta e o retrato de Chico Buarque remetem ao passado, que para ela parece não ter sido tão distante. Estagnada no tempo e fadada a ser a eterna titia, vive brigando com as irmãs por coisas sem valor como um sofá velho. Seu apartamento lembra a casa de uma idosa, cheia de plantas que, no entanto, contrastam com a fumaça despejada por seus lábios de fumante obsessiva.

Baby vê sua vida mudar quando o apartamento vizinho é alugado por um músico. Num primeiro momento ele parece interessado nela e ao mesmo tempo um malandro, afim apenas de casos esporádicos com várias mulheres. Baby se interessa por Max e começa a se cuidar, para tentar conquistá-lo vai ao cabeleireiro e à depilação. Até mesmo as roupas dela mudam com o desenrolar do relacionamento, seu estilo muda radicalmente, de dona de casa - com blusas de moletom - para uma mulher mais jovem, com camisetas curtas e shortinhos jeans. Vemos aí uma crítica de Anna ao constante ato das pessoas mudarem quem são para agradar o parceiro, com medo talvez, da solidão.

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Ao som de Jorge Ben os dois começam a namorar, contudo Max ainda está apaixonado por sua ex-mulher Stelinha, fumante. O tom cômico e puro do filme ganha ares dramáticos a partir daí, com fatos inesperados. Assim como em Durval Discos, um fato repentino muda a história do filme. Novamente Anna revela seu gosto pelo drama e pelo imprevisto.

Os pensamentos dos personagens mudam com o desenrolar dos fatos e Baby - por mais que seja aparentemente honesta - mostra-se vulnerável, faz uma abertura na parede do apartamento para ver o quarto de Max, suspeita de suas traições. Ela ouve gritos e gemidos vindos do apartamento dele, não quer acreditar, mas desconfia do músico. Personagem discreto e essencial, o porteiro Chico até então uma pessoa honesta, vê a grande oportunidade de mudar de vida e voltar para sua terra natal ao presenciar a morte de Stelinha.

Max que num primeiro momento parecia ser do tipo golpista, mentiroso e trapaceiro mostra-se na verdade um homem que ainda amava a ex-mulher e não conseguia se desvencilhar desse amor. Após a morte de Stelinha ele se entrega ao amor de Baby, a ponto de aceitar chantagem para salvá-la.

O filme esteve entre os 24 finalistas que concorriam para decidir qual filme nacional seria indicado ao Oscar 2011, mas perdeu para o filme que conta a história de Lula. Em 2009 no Festival de Brasília ganhou em oito categorias, entre elas o de melhor filme, ator e atriz. Neste ano o longa deixou para trás Se eu fosse você 2, e ganhou o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2010 como melhor filme e outras quatro categorias.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Flu lidera, mas vantagem diminui

Acabou há pouco a trigésima terceira rodada do Brasileirão e daqui pra frente não há mais pontos a perder para quem almeja o titulo e para quem foge da série b. Faltando apenas cinco jogos para o fim do torneio, algumas coisas já podemos afirmar e dificilmente erraremos, como o evidente rebaixamento do Prudente.

BRASILEIRÃO/CORINTHIANS X AVAÍ Mas comecemos pela parte de cima da tabela, onde Fluminense, Corinthians e Cruzeiro travam um amigável e respeitoso duelo pela ponta. Sim porque a maneira como tais equipes perderam pontos é tamanha que até o Botafogo encostou, isso mesmo, o Fogão do “Papai Joel”, que já começa a provocar a arbitragem, bisonha.

Desses quatro a campanha do alvinegro carioca parece mais simples, com Avaí, Ceará e Grêmio fora, Internacional e Prudente no Engenhão. Não seria exagero calcular no mínimo dez pontos. O Cruzeiro chegou com pinta de campeão, mas logo começou a vacilar e da liderança foi parar na terceira posição. O futuro da Raposa é incerto, talvez o mais difícil. Vitória, Corinthians e Flamengo como visitante, Vasco e Palmeiras em Minas. Alguém arrisca mais de nove pontos? Eu não.

dalessandro031110alexlops Fluminense e Corinthians lideram o campeonato desde o início e alternam na liderança. Nas últimas rodadas bobearam um pouco, mas a recuperação veio a tempo. O Timão tem jogos complicados, entre eles o clássico com o São Paulo, Cruzeiro no Pacaembu e Vitória na Bahia. Nas duas partidas finais enfrenta o Vasco como mandante e o Goiás no Serra Dourada. O mínimo possível para um candidato ao título seria 11 pontos. O Tricolor de Nelson Rodrigues também tem um derby, contra o Vasco. Fora isso, Goiás e Guarani em casa, São Paulo e Palmeiras fora. No mínimo dez pontos.

Caso não alcancem tais pontos, podem perder até mesmo a vaga na Libertadores, isso porque São Paulo, Atlético PR e Grêmio chegaram e aguardam tropeços dos rivais. O time paulista pega dupla de lideres e dois desesperados. Os paranaenses pegam adversários mais fracos e podem pontuar com facilidade. Já os gaúchos precisaram suar contra Santos e Botafogo, além do confronto com o Furacão.

Na zona de rebaixamento o Prudente já fez as malas para a série b e pode cair já na próxima rodada. O Goiás namora a segunda divisão há pelo menos três anos e desta vez apresenta futebol condizente com suas aspirações. O Avaí é forte candidato depois da goleada sofrida ontem e pelo medíocre futebol dos últimos jogos. A quarta vaga é uma incógnita. O Galo segue sua saga para continuar a elite, mas a má campanha durante todo o torneio pode pesar, atualmente não merece cair. O Bugre fez um bom primeiro turno, no entanto a fase não ajuda, foram somente sete pontos em trinta e seis disputados, com direito a derrota para o Prudente. Os goianos do Atlético GO conseguiram sair da degola, mas confrontos contra Inter, Palmeiras e São Paulo podem atrapalhar. O Vitória respirou, mas uma derrota pode atrair a série b, portanto precisa vencer para não sofrer no final, mas seus rivais são mais fracos, há esperança de vermos dois baianos na primeira divisão.

Dos outros times não se pode esperar muita coisa. Santos e Inter estão apenas cumprindo tabela. Palmeiras, Vasco e Ceará são os aspones do Brasileirão. Cinco pontos separam o Flamengo da zona de rebaixamento, entretanto o clube pontuou nos últimos oito jogos, muitos empates é verdade, mas deve bastar.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A biblioteca de Pessoa

caricatura A biblioteca de um dos maiores poetas do mundo está aberta ao público e não é necessário nem sair de casa para visitá-la. A Casa Fernando Pessoa divulgou mês passado que toda a biblioteca do escritor português foi digitalizada e está acessível no portal da instituição.

São mais de mil volumes que pertencem à biblioteca particular do poeta, entre eles traduções, comentários, anotações do autor. A biblioteca digital pode ser acessada no endereço virtual Casa Fernando Pessoa.

Abaixo poema do autor pelo heterônimo de Alberto Caeiro.figura9bpeq

O Guardador de Rebanhos

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...

Que pensará o meu muro da minha sombra? 
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas…
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.